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O Conselho Nacional de Educação resolveu censurar o livro “Caçadas de Pedrinho” de Monteiro Lobato por considerar a obra racista. Tudo porque em certas passagens do livro está escrito “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão” e em outra passagem “Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens” A levarmos a sério esta afirmativa – de racismo e preconceito por parte de Monteiro Lobato, deveríamos igualmente censurar Machado de Assis que em uma de suas obras escreveu: “Por que bonita, se coxa, e por que coxa, se bonita?” Quem sabe reescrever o poema Navio Negreiro de Castro Alves e deletar inúmeras passagens como esta: “No entanto o capitão manda a manobra, E após fitando o céu que se desdobra, Tão puro sobre o mar, Diz do fumo entre os densos nevoeiros: Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!…” Quer dizer então que agora o Conselho Nacional de Educação vai tomar para si o direito de invadir editoras mundo a fora, com se donos da verdade absoluta fossem, para recolher os livros de Monteiro Lobato, Machado de Assis, Castro Alves e tantos outros escritores que “ousaram” escrever suas histórias longe da hipocrisia do politicamente correto (termo e conceito estes que nem existiam na época)  por retratarem fatos, idéias e conceitos dentro daquela perspectiva histórica.

Por mais cruel que isso pareça, naquele contexto da época considerar um negro um ser inferior e desprezar os deficientes físicos eram atitudes normais tanto na literatura como na convivência social de todos os povos. Assim não fosse, não teríamos a escravidão que foi tolerada e explorada por todos, inclusive pela religião católica e muitas outras. Ou os nascidos com deficiência que eram mortos na Grécia. Tais atitudes e comportamentos ignóbeis devem e precisam ser transformados em livros para serem lidos e aprendidos por todos (até mesmo crianças e jovens) para uma tomada de consciência e, principalmente, para uma mudança de atitude. Esconder isto não elimina, de forma alguma, nossa culpa e nossos atos no passado e nem nos torna pessoas melhores que eles. Esta atitude (de esconder o passado) só nos torna, a todos, pessoas hipócritas e principalmente cordeiros de inescrupulosos censores do pensamento.

Estes senhores engravatados reclusos em seus gabinetes refrigerados longe da realidade deveriam ler 1984 de George Orwell. Talvez estes censores acreditem participar do “Ministério da Verdade” e investidos de inquisidores da “cultura do pensamento” tomem para si o direito reescreverem os livros que possuem personagens ou narrativas ditas como “politicamente incorretos” (ou pretensamente racistas e preconceituosos) para os tornarem livros dentro dos parâmetros do aceitável  “politicamente correto”.  A Continuar assim, em pouco tempo estaremos a reeditar jornais e livros de história para esconder nosso passado e na medida seguinte prender seus escritores, editores e historiados. Até chegarmos ao dia em que estaremos a queimar em praça pública livros e seus autores. Já vimos este filme!

Os membros do Conselho Nacional de Educação deveriam se preocupar com o analfabetismo funcional de jovens que terminam o ensino médio sem um mínimo de consciência crítica ou sem condições mínimas interpretarem um texto simples. Muitos jovens saem das escolas de ensino médio sem nunca terem lido um livro – ou quando o fazem – não possuem o discernimento para entender o que leram. O Conselho deveria igualmente se preocupar com a formação dos professores e habilitá-los a exercerem esta atividade de forma mais abrangente e em melhores condições de trabalho. Dar-lhes perspectivas de crescimento profissional e salários dignos além é claro de construírem escolas e bibliotecas e não censurar livros! A ficarem a procurar preconceitos e racismos em livros cujo contexto histórico é diferente da atual é no mínimo uma perda de tempo e uma irresponsabilidade com a história da evolução humana. É preciso que se tenha conhecimento histórico dos fatos, da realidade do dia-a-dia e do estilo de vida dos nossos antepassados para que possamos evitar os erros e evoluirmos como seres humanos. A vivermos neste ambiente asséptico que querem nos enclausurar os senhores do CNE viveríamos num mundo hipócrita com conhecimento de um passado falso e a perspectiva de um futuro sem a menor consciência crítica.

Não somos crianças para que o CNE venha a nos tapar o sol com a peneira e dizer-nos que o mundo sempre foi politicamente correto! Até porque, se hoje temos esta consciência da igualmente de respeito ao negro, ao deficiente e as todas as minorias é em razão do nosso conhecimento das condições de vida que estas pessoas levaram e os sofrimentos por que passaram.  Só se aprende e se valoriza a pessoa na medida em que tomamos consciência das diferenças (sejam elas de raça, cor, sexo e religião) e da necessidade do respeito e da valorização do indivíduo.

Por sorte os acadêmicos da Academia Brasileira de Letras (ABL) reunidos em plenário colocaram uma pá de cal nesta polêmica com a seguinte nota: “cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica. Um bom leitor sabe que tia Anastácia encarna a divindade criadora dentro do Sítio do Picapau Amarelo. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afro-descendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica”. A ABL sugeriu ainda que em vez de proibir as crianças de saberem disso (racismo e preconceito) “seria muito melhor que os responsáveis pela educação estimulassem uma leitura crítica por parte dos alunos”. Felizmente a ABL teve o bom senso de barrar este disparate e esta censura esdrúxula ao livro de Monteiro Lobato e colocá-lo novamente nas salas de aula. Que nossas crianças tenham acesso a obra deste genial escritor que fez parte de gerações de escritores no Brasil e no exterior. A estes senhores uma palavra: B R A V O!

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