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Sempre quando me perguntam qual a cena inesquecível do cinema brasileiro a primeira que me vem à mente é do filme Pixote – A Lei do Mais Fraco dirigido por Hector Babenco. Para quem não viu o filme é a história do garoto Pixote que, em uma ronda policial, é recolhido para a FEBEM e lá acaba se envolvendo com a criminalidade juvenil cheirando cola e aprendendo outros vícios além de temer pela própria vida e sofrer estupro por parte dos outros internos. Após a fuga com outros garotos Pixote perambula pelas ruas praticando pequenos delitos e envolvendo-se com prostitutas e bandidos. Hector Babenco faz um painel cruel da existência destes meninos de forma competente e sensível, sem, contudo ser maniqueísta ou professoral. Sua câmera nos mostra a realidade possível sem retoques e a forma como Pixote lida com todas estas dificuldades e traça seu destino. Destino este que o espectador já prevê em razão das “armadilhas” impostas pela sociedade no caminho deste garoto.

A Cena em questão é emblemática e é uma síntese perfeita de toda a história. Pixote está nos braços da prostituta Sueli como se fora um bebê no singelo momento da amamentação. Neste ato sublime Pixote sente-se protegido e acolhido. Sente, com certeza, que é amado e que pertence ao mundo das crianças que são alimentadas, queridas e desejadas. Sueli, por sua vez apresenta-se como uma mãe acolhedora que ama esta criança e o acolhe em seu colo. Mas este momento de ternura é apenas um sonho impossível, visto que a realidade de ambos é diametralmente oposta a esta convivência amorosa. Pixote e Sueli pertencem ao mesmo mundo subterrâneo do desamor, da indiferença, da dor e do abandono razão pela qual não conseguem transmitir (e sentir) sentimentos nobres e humanos uma vez que viveram à margem destes relacionamentos afetivos. Suas realidades são chocantes e por isso mesmo, antagônicas de amor de mãe e filho.

Nas frases duras e cruéis que Sueli profere ao menino logo após sentir toda a impossibilidade de ser a mãe que acolhe o filho ao colo para amamentá-lo e criá-lo com ternura sentimos um nó na garganta e uma dor profunda no coração. Pixote levanta-se quase com indiferença ao gesto como a esperar tal rejeição já que foi só desamor que sempre recebeu da vida. Olha uma última vez Sueli e, sem dizer palavra de acusação ou implorar ajuda, levanta-se e com sua mão de menino coloca um revólver à cintura e sai para a rua a enfrentar seu cruel destino.

Eis a cena antológica e, por isso mesmo, inesquecível:

Por esta interpretação Marília Pêra recebeu, em 1981 o Prêmio de Melhor Atriz pela Sociedade de Críticos de Cinema dos Estados Unidos.

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